12 de novembro de 2017

INSONDÁVEIS MISTÉRIOS. Ricardo Salgado é acusado pelo Ministério Público, no âmbito da «Operação Marquês», de ter cometido 21 crimes. O antigo banqueiro, que garante estar inocente, veio chorar em todos os jornais o arresto da sua pensão de velhice — ficou agora, segundo ele, «praticamente com o correspondente a dois salários mínimos». Disse mais Ricardo Salgado: que lhe dói profundamente os lesados do desmoronamento do Banco Espírito Santo, que nunca subornou ninguém, que será ilibado da «monstruosidade» de que é acusado. Como diz a lei e o senso comum, Ricardo Salgado é inocente até prova em contrário. Como são inocentes até prova em contrário todos os acusados da «Operação Marquês», embora o princípio para os restantes se note bastante menos. Por obra e graça não sei de quê, não li num único jornal que lhe deu espaço para chorar a pensão e o resto que Ricardo Salgado é acusado de 21 crimes (nove por branqueamento de capitais, três por fraude fiscal qualificada, três por falsificação de documentos, três por abuso de confiança, dois por corrupção activa e uma por corrupção activa de titular de cargo político), como sempre acontece, e bem, quando falam dos outros acusados, nomeadamente José Sócrates (31 crimes), Carlos Santos Silva (33), Henrique Granadeiro (8) e Zeinal Bava (4). Por que será? A omissão não foi por acaso, pelo que a explicação tem que ser outra. Talvez alguém da Santíssima Trindade saiba alguma coisa.

6 de outubro de 2017

COISAS QUE NÃO PERCEBO. Apesar de muitos pontos comuns, cada apoiante de Trump sê-lo-á pelos seus próprios motivos. Mas se antes de ser Presidente me custou entender-lhes os motivos (e, sobretudo, a ingenuidade), hoje, oito meses volvidos, não compreendo de todo. Como defender um ignorante do mais básico? Um mentiroso compulsivo? Um comprovado incompetente? Um egomaníaco? Um indivíduo que fomenta a divisão e o ódio entre americanos? Que não diz coisa com coisa quando lhe tiram o teleponto da frente? Que é alvo de risota no mundo inteiro? Que não consegue fazer aprovar quase nada do que prometeu? Que se rodeou de lunáticos, incompetentes, aldrabões, oportunistas? Que já foi obrigado a despedir — ou aceitar a demissão — de duas dezenas de membros da sua administração em pouco mais de meio ano de governação e a manter mais dois ou três que ainda lá estão porque não têm vergonha na cara? Que pediu a prisão de Hillary Clinton por ter usado indevidamente uma conta de email e agora está rodeado de gente que fez o mesmo? Que insiste em desvalorizar a intromissão russa nas eleições só porque foi beneficiado? Que, caso venha a ser acusado na trama russa, ameaça com um auto-perdão, extensivo a quem o rodeia? Que, se pudesse, já tinha calado os media que divulgam notícias que lhe desagradam? Que, face à recente tragédia de Porto Rico, se comportou de forma miserável, sem um pingo de humanidade? Bem sei que os apoiantes de Trump se limitam a atacar os seus adversários (nunca os vejo elogiar-lhe uma decisão, uma atitude). Mas mesmo assim continua a ser um insondável mistério. Haverá algo de bom no Presidente que não estou a ver? Se há, façam o favor de me dizer o quê.

28 de setembro de 2017

PRAZERES. Depois de o ter visto no Youtube há uns anos, voltei, agora apenas em áudio, a um programa da TVE ainda do tempo em que a televisão era a preto e branco. Julio Cortázar, Jorge Luis Borges, Juan Rulfo, Alejo Carpentier, Guillermo Cabrera Infante, Juan Carlos Onetti, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Salvador Dalí, Federico Fellini, Mario Benedetti, Ernesto Sabato e Gabriel García Márquez foram alguns dos entrevistados do programa A Fondo, que ouvi com o mesmo prazer da primeira vez. Essencialmente porque possuíam uma cultura vastíssima, experiências de vida notáveis, e tinham lido tudo o que era essencial — coisas que hoje se vêem pouco na generalidade dos escritores mais novos, como facilmente se constata nas entrevistas que dão e nos livros que escrevem.

24 de agosto de 2017

PROVOCAÇÕES DELIBERADAMENTE PERIGOSAS. Duvido que alguém que pratica a mentira como um desporto (o Washington Post contabilizou uma média de cinco mentiras diárias) consiga minar a credibilidade de quem quer que seja, que de um mentiroso só se espera que minta. Mas já me pareceu mais improvável que Trump consiga, com as suas constantes declarações incendiárias, criar um clima de violência contra os media de que não gosta (leia-se todos os que noticiam assuntos que lhe desagradam). Os ataques do Presidente ao que ele designa por «fake news» e inimigos da pátria são cada vez mais frequentes, cada vez mais violentos, cada vez mais perigosos — porque Trump sempre gostou de pôr todos contra todos, de instigar o ódio entre quem discorda do pensamento único (leia-se o dele). Como qualquer pessoa minimamente informada já terá percebido, nunca, como hoje, foi tão necessário um jornalismo competente e actuante, e se por vezes se cometem erros, no geral está bom e recomenda-se. Mas se continuo convencido de que Trump perderá a guerra com os media, cada vez me parece mais provável que não sem antes haver vítimas. Não vítimas resultantes de danos colaterais (chantagens, despedimentos, coisas assim), que também haverá. Falo de «vítimas a sério», resultantes de violência física, que neste momento só me espanta ainda não existirem. Trump demonstrou durante a campanha que é um sujeito perigoso, voltou a demonstrá-lo já eleito, confirmou-o nos últimos dias. Quase apostaria que, a suceder, será o primeiro a dizer que estavam mesmo a pedi-las.

15 de agosto de 2017

A MORTE SAIU À RUA. Olhando para a trajectória de Trump desde a campanha eleitoral até ao fatídico fim-de-semana passado, a reacção do Presidente aos acontecimentos de Charlottesville (fez umas vagas declarações a condenar a violência «de muitas partes» que depois, encostado à parede, corrigiu a contragosto) foi coerente com o que tem dito — e feito — até agora. Fosse o terrorismo da Virgínia (sim, o que se passou na Virgínia chama-se terrorismo) praticado por radicais islâmicos, e Trump andaria, e bem, para aí aos gritos. Como veio de onde veio, isto é, de racistas, supremacistas brancos, simpatizantes do nazismo e outros espécimes do género (tudo gente que o apoiou e com quem Trump simpatiza parcial ou mesmo totalmente), limitou-se a uma espécie de condenação burocrática e a mudar rapidamente de assunto. Claro que os acontecimentos da Virgínia, muito estimulados pela retórica de Trump e dos media de extrema-direita, podem ser um rastilho para mais violência. Mas estou convencido de que tiveram pelo menos o mérito (digamos assim) de mostrar a natureza de quem nos governa, de lançar dúvidas entre alguns dos seus crentes. Como se viu nas manifestações espontâneas que logo surgiram um pouco por todo o país, é clara a associação que se faz dos acontecimentos da Virgínia à trajectória de Trump. Quem duvida que o sujeito potencia comportamentos de ódio, terá ficado com menos dúvidas. Não é muito, mas já é alguma coisa.

8 de agosto de 2017

UM DESASTRE NUNCA VISTO. O Presidente Trump arranjou, finalmente, alguém ao seu nível. Um tal Scaramucci, a quem meia dúzia de dias de poder bastaram para demonstrar ser mais papista que o Papa. Depois de ter dito vezes sem conta amar o Presidente, coisa nunca vista talvez mesmo na Coreia do Norte, ameaçou «limpar» o gabinete presidencial, «matar» (metaforicamente, presume-se) os autores das fugas de informação — medidas que, juntamente com as declarações grosseiras à New Yorker, provocaram mais duas baixas no gabinete presidencial, que se vieram juntar ao general Flynn e a outras figuras menores, para não mencionar o despedimento de James Comey, ex-director do FBI (afastado em circunstâncias muito suspeitas), e o cada vez mais fragilizado Jeff Sessions, ministro da Justiça e procurador-geral, que depois de ter sido obrigado a afastar-se da investigação russa tem vindo a ser enxovalhado pelo Presidente sem que se perceba por que não o demite ou Sessions saia pelo próprio pé. Dez dias depois, Trump mudou a agulha, e Scaramucci já era. Agora estamos na fase do detector de mentiras, que a Casa Branca pondera usar como forma de acabar com as fugas de informação, que a concretizar-se levaria a gente que rodeia o querido líder a humilhar-se ou, se tiver coluna vertebral, a demitir-se (esperemos que o polígrafo não se aplique ao Presidente). E da Trump News, uma coisa inacreditável, própria de quem não tem um pingo de vergonha na cara e que não ocorreria nem ao jumento que manda na Venezuela. E hoje mesmo a cada vez mais atrevida Coreia do Norte, que o irresponsável que nos calhou em sorte perigosamente trata com a subtileza de um elefante numa loja de porcelanas. Tudo isto em seis meses e pouco, durante os quais a grande bandeira de Trump — acabar com o Obamacare — falhou três vezes, e o resto das medidas continuam em banho-maria ou encalhadas nos tribunais. Prognostiquei, na primeira hora, que Trump seria um desastre, e muitos pensaram que exagerei. Desculpem a presunção, mas hoje, face ao que já se conhece, se de alguma coisa me podem acusar é de ter sido excessivamente modesto.

21 de julho de 2017

AS OBSESSÕES FAZEM MAL À SAÚDE. O Presidente Trump e o Partido Republicano têm um plano claríssimo face aos cuidados de saúde: acabar com o Affordable Care Act, o chamado Obamacare. Não corrigir o que não está bem no plano (até o Partido Democrático concorda que há coisas que não estão bem), o que seria expectável, mas pura e simplesmente acabar com ele. Vai daí, após sete anos em que se limitaram a criticá-lo sem nada fazer para o melhorar, eis que inventaram um plano à última hora para mostrar que havia alternativa ao Obamacare. O resultado é conhecido: não chegou a ser votado pela Câmara dos Representantes, de maioria republicana, por não haver os votos necessários. Reformulado, o Trumpcare 2.0 foi, de seguida, enviado ao Senado, também de maioria republicana, e o resultado foi conhecido há três dias: não chegou a ser votado, por se saber, à partida, que iria ser chumbado. Pior: em desespero, o Presidente apelou aos republicanos para revogar o Obamacare, e quanto a um novo plano para o substituir, depois se verá. Como seria de esperar, os republicanos mostram-se reticentes, e o resultado não é difícil de adivinhar: Trump falhará pela terceira vez. Se a posição de alguns sectores republicanos é coerente com os princípios que defendem, já o Presidente demonstrou toda a sua ignorância em matéria governativa quando prometeu, durante a campanha (e já depois de tomar posse), que substituiria o Obamacare enquanto o diabo esfrega um olho. Ao contrário do que supunha (e não só ele), governar um país não é o mesmo que dirigir uma empresa, ou um conjunto de empresas, e a incompetência para governar o país, aliada à ignorância arrogante, vai custar-nos caríssimo. A famosa capacidade negocial do Presidente, em tempos tão elogiada, revelou-se outra falácia, porque a política e os negócios são, para o bem e para o mal, dois mundos diferentes, por vezes incompatíveis. Resta-nos o tão odiado «sistema», sem o qual já estaríamos ao nível de uma república das bananas. Pior: provavelmente estaríamos a assistir às piores práticas russas de Putin, que Trump tanto admira. E que consistem, já agora, em liquidar opositores, quem se atreve a revelar a corrupção e toda a espécie de vigarices instaladas no Kremlin.

29 de junho de 2017

ESCÂNDALO NA PARÓQUIA. A ventosidade intestinal que Salvador Sobral sugeriu durante o concerto para as vítimas de Pedrógão Grande escandalizou a pátria do Minho ao Algarve, da Calheta a Caracas, talvez mesmo os Amigos de Olivença. Curiosamente, a pátria não costuma escandalizar-se quando vê os jogadores da «selecção de todos nós» dizer, com todas as letras, palavrões de toda a espécie, como ainda ontem se viu frente ao Chile. Convenhamos que o comentário de Salvador, uma «inconveniência» de que o próprio diz não se orgulhar (e que, para mal dos seus pecados, terá praticado outras vezes), não foi muito elegante. Mas a dor de corno que logo veio ao de cima, a pretexto da moral e dos bons costumes, também não cheirou lá muito bem. Sim, a vitória de Salvador no festival das cantigas não agradou a todos, especialmente a uns quantos profissionais do ramo, que agora aproveitaram a ocasião para o dizer sem o dizer. Como não aprecio moralismos hipócritas, sobretudo de quem nada tem para mostrar, quase lamento que Salvador não tenha ido mais longe.

14 de junho de 2017

ISTO NÃO É SOBRE TRUMP. Tirando quem se espera fazê-lo, geralmente pago para isso, ainda não vi quem defendesse o Presidente Trump. Com argumentos dignos desse nome, evidentemente. Atacar os seus adversários, por vezes de forma rasteira e mentirosa, não basta para o defender. Há que dizer que Trump é bom nisto, faz bem aquilo — e fundamentar o que se diz. Confrange, de facto, o deserto argumentativo, que só pode significar que Trump é pior do que se pinta. A maioria dos trumpistas foi desertando para mais amenas paragens. Uns por oportunismo, outros porque se sentirão embaraçados pelo que vêem, outros ainda porque não aguentam tanta mentira (nove por dia, em média, segundo o Washington Post). Depois há os que assobiam para o lado, os que entraram em negação, quem o defende porque sim e outros casos perdidos. Rasgar o acordo sobre o clima, com base em pressupostos que não se percebem, valeu-lhe o desagrado universal. Até a filha e o genro, cuja opinião Trump terá em conta, foram notoriamente contra, deixando o Presidente cada vez mais à mercê dos lunáticos que o rodeiam, das suas próprias obsessões e fantasmas. Agora estamos nas gravações das conversas entre o Presidente e o ex-director do FBI, que Trump ameaça ter mas que ninguém sabe se tem, e se tem que novidade trarão — uma comédia do pior se não estivesse em causa intimidar quem decidiu enfrentá-lo. Amanhã outra coisa virá, que nesse aspecto o Presidente nunca desilude: está sempre pronto a surpreender-nos, cada vez pelos piores motivos. Resta saber até quando o partido que o suporta estará disposto a ignorar as bandeiras vermelhas que todos os dias se levantam, a fazer o pino para o defender, a suicidar-se com ele.

17 de maio de 2017

TRUMP VAI ESCREVENDO O SEU PRÓPRIO EPITÁFIO. Duvido que alguma vez se demonstre a existência de conluio entre o governo russo e a campanha de Trump, até porque o que há, até ver, são meras suspeitas. Mas que as ligações perigosas de alguns membros de topo da campanha de Trump ao governo russo são mais que muitas (já vai em 17 membros), não há dúvida que são. O que terá levado Trump a esperar 18 dias para afastar o general Flynn depois de saber que o então conselheiro de Segurança mentiu ao vice-Presidente e o mais que não sabemos? Esteve à espera que os media, no caso o Washington Post, denunciassem o caso para que já não lhe fosse possível escondê-lo? O que terá levado Trump a elogiar o Presidente Putin e a desvalorizar a comprovada interferência russa nas presidenciais americanas mesmo depois de membros do seu gabinete terem acusado a Rússia de não cumprir, na Síria, o que prometeu? O que terá levado Trump a encontrar-se, quase em segredo, com o ministro russo dos Negócios Estrangeiros e o embaixador russo em Washington, com quem partilhou, tudo indica que de modo indevido, informação reservada, como o próprio acabou por confirmar depois de ter mandado desmentir? Que mais haverá para que Trump insista em defender a administração russa contra todas as evidências? Que ligações terá o Presidente à Rússia para que a investigação em curso o perturbe assim tanto? Terá o general Flynn, agora obrigado a depor no Senado (e com sérias hipóteses de acabar na cadeia), alguma história para contar que embarace o Presidente? Terá Vladimir Putin na sua posse matéria capaz de chantagear Trump e destruí-lo politicamente? Como se vê, sobram perguntas, e escasseiam respostas. Algumas terão resposta nos próximos tempos, outras talvez nunca. Creio, no entanto, que se conhecerá o bastante para se vir a demonstrar que a fumaça corresponde, de facto, a um incêndio que vem alastrando a um ritmo alarmante, e desse modo agir em conformidade. E agir em conformidade significa abrir um processo de destituição, que neste momento me parece que é só uma questão de saber quando.

13 de maio de 2017

UM PRESIDENTE A ESBRACEJAR NO PÂNTANO. James Comey, até há dias director do FBI, tornou-se um alvo a abater a partir do momento em que ousou admitir a existência de uma investigação destinada a apurar um eventual conluio entre a campanha de Trump e a administração russa e se distanciou da inventona das escutas à Trump Tower. Como na ocasião seria demasiado escandaloso, Trump aguardou, impaciente, a primeira oportunidade para correr com ele, e julgou que as últimas revelações da controversa figura sobre os não menos controversos e-mails de Hillary Clinton seriam a oportunidade por que ansiosamente esperava. Como se viu, julgou mal, e o tiro saiu-lhe pela culatra. A «questão russa», que Trump e colaboradores consideram uma mera invenção, ganhou ainda maior exposição, e se dúvidas houvesse acerca de um possível conluio entre trumpistas e russos, com o afastamento do chefe da agência que investiga o caso passou a haver ainda mais. Só quem não quer ver consegue desvalorizar que o Presidente — cada vez mais desorientado, cada vez mais de cabeça perdida, cada vez mais desesperado — despediu quem o estava a investigar — logo nunca haverá uma explicação suficientemente boa que apague a suspeita de que Trump pretendeu, com esta medida, travar a investigação russa, como se fosse possível travar a investigação russa demitindo o chefe. Veremos o que isto vai dar, mas tudo indica que vai acabar mal. Para Trump, evidentemente, embora não só. Para mal dos nossos pecados, provavelmente também para nós.

27 de abril de 2017

O DESASTRE ANUNCIADO. Impossível ignorar o silêncio dos apoiantes de Trump, cada vez mais ensurdecedor. São tantas as asneiras, a incompetência, as mudanças de opinião, as mentiras, a ignorância mais básica sobre tudo o que importa e os exemplos de indigência mental que se torna cada vez mais difícil defendê-lo. O muro foi adiado para as calendas. A política de fronteiras e a ordem executiva que penaliza as cidades que não cumprem as exigências federais em matéria de imigração esbarraram nos tribunais. O NAFTA, Tratado Norte-Americano de Livre Comércio com o México e Canadá que Trump em tempos considerou o pior acordo comercial da história, era para rasgar, agora é para ser renegociado. As despesas com as constantes deslocações de Trump ao seu clube privado na Florida, inexplicavelmente promovido — a custo zero — nalguns sites do governo, crescem diariamente sem que se perceba por que serão os contribuintes a pagar a conta. Os negócios da família montaram escritório na Casa Branca. A China passou de inimigo a abater a amigo a estimar (há por lá negócios da família a cuidar). A NATO era obsoleta, mas agora, por obra e graça ninguém sabe de quê, deixou de ser. A Rússia era amiga, agora ninguém sabe o que é. A América estava primeiro, mas três meses bastaram para atacar a Síria e o Afeganistão, a Coreia do Norte está no radar, e a aviação russa passeia-se perigosamente pelo Alasca. Para quem prometeu virar do avesso a política externa de Obama e erradicar o autodenominado Estado Islâmico (nada foi feito até agora), no mínimo é embaraçoso. Graças à incompetência dos que tentaram acabar com ele oferecendo em troca uma alternativa inventada à pressa (e bastante piorada), o tão odiado Obamacare mantém-se em vigor. As declarações de impostos do Presidente eram para ser mostradas aos eleitores, mas por razões que não foram explicadas já não vão ser mostradas. Sondagens recentes revelam que Trump é o Presidente mais impopular de sempre. Apenas 4% dos norte-americanos o considera honesto. Leram bem: quatro por cento (Obama chegou a ter 74, Bush filho 62, Clinton 61). A suspeita de conluio entre importantes figuras da campanha de Trump e a administração russa, que ainda há uns meses o Presidente elogiava (Trump nunca escondeu o seu fascínio por ditadores e aparentados), cresce de dia para dia. Sim, o Presidente conseguiu nomear o juiz Neil Gorsuch para o Supremo Tribunal, embora a sua base de apoio tivesse que recorrer a um expediente controverso. Para 100 dias de Governo, que agora se assinalam, é um desastre sem precedentes. Mas o pior pode estar para vir. Afinal, Trump está sempre a demonstrar que pior é sempre possível.

7 de abril de 2017

MAIS NOTÍCIAS DO MANICÓMIO. Nunca dei um centavo por Trump e pela malta que o rodeia. Mas devo confessar que a pantomina em cena excedeu as minhas piores previsões. Para ajudar à barafunda, o luso-descendente Devin Nunes prestou-se ao triste papel de moço de recados para manter vivo um nado morto (a inventona das escutas de Obama a Trump), a seguir quis-nos fazer crer que prestou um grande serviço à pátria, no dia seguinte pediu desculpas aos parceiros da comissão que investiga a intromissão russa nas Presidenciais, finalmente percebeu que perdeu a confiança dos pares e agiu em conformidade. Tudo isto para nos distrair do essencial: a investigação sobre o eventual conluio entre a campanha de Trump e a administração russa, cuja suspeita aumenta de dia para dia. Depois há um general cagarolas disposto a contar o que sabe se lhe salvarem a pele, dezenas de apartamentos vendidos a russos suspeitos de subtrair pipas de massa aos seus conterrâneos, a humilhação do Presidente e respectiva família política por não terem conseguido substituir o Obamacare por um sistema pior, e outras histórias igualmente fedorentas. Somado ao cada vez maior atrevimento da Coreia do Norte e ao pesadelo da Síria, que Trump decidiu bombardear com o mesmíssimo pretexto com que há quatro anos defendeu o contrário (e cujas consequências ninguém, até agora, conseguiu antecipar), eis que estão criadas as condições para o descrédito total de uma democracia em tempos exemplar. Felizmente que o tão odiado «sistema» funciona, pelo que Trump virá a ser, quando muito, uma espécie de Putin dos pequeninos.

23 de março de 2017

NOTÍCIAS DO MANICÓMIO. Se não fosse grave, a história das alegadas escutas do então Presidente Obama ao então candidato Trump seria hilariante. Como não bastasse a ausência da mais leve evidência de que tal tenha ocorrido, como se percebeu desde o início, a administração Trump inventou que os serviços secretos britânicos foram os operacionais da alegada patranha, e como é sabido, a coisa correu mal. No dia seguinte a administração Trump recuou, desfez-se em desculpas, prometeu portar-se bem dali em diante — uma cena penosa de se ver. Para cúmulo, o Presidente deitou ainda mais lenha na fogueira, dizendo que se limitou a citar a Fox News, pelo que se algo esteve mal foi a Fox, não ele. O Presidente decide com base no que dizem os media? Obviamente que a desculpa ou é estúpida, ou o Presidente decide mesmo com base no que dizem os media em que ele confia, e nesse caso seria inacreditável e ainda mais estúpido. Convém lembrar que na origem das alegadas escutas que Trump garantiu existirem estiveram duas fontes que o Presidente tem como credíveis: o Breitbart News, site de extrema-direita que se notabilizou pelas fake news (e deu ao governo o sinistro Stephen Bannon), e a Fox News, que dispensa apresentações, embora no caso em concreto até nem tenha estado mal (o Presidente tomou como um facto a opinião de um comentador entretanto despedido). Juntando o mal-amanhado episódio a tantos outros igualmente risíveis, impõe-se uma pergunta: até onde irá o delírio de Trump? Quantos sapos mais estará o Partido Republicano disposto a engolir para lhe manter o apoio? Se os republicanos tiveram razões para tentar impedir que Trump fosse nomeado candidato presidencial, mais razões têm agora para lhe travar a espiral de loucura. Quem já não percebeu que a administração Trump é uma bola de neve a rolar para o abismo?

15 de março de 2017

REAL NEWS.

1. Kellyanne Conway, assessora de Trump e propagandista dos negócios da filha do Presidente, sugeriu que pelo menos 20 por cento dos jornalistas que cobriram as presidenciais americanas deviam ser despedidos, alertou para a existência de «factos alternativos» (deu um exemplo com um massacre que nunca existiu depois de já ter atribuído a Obama uma decisão que não tomou), e mais recentemente tentou impingir-nos a ideia de que o ex-presidente espiou Trump com um microondas.

2. Steve Bannon, especialista em fake news e ao que dizem responsável pela estratégia da Casa Branca, comentou que os media deviam calar-se, e posteriormente garantiu que a relação entre os media e a Casa Branca «só vai piorar» (dois dias depois CNN, BBC e New York Times seriam proibidos de aceder a um briefing na Casa Branca).

3. Lamar Smith, congressista, recomendou aos americanos que ignorem os media e obtenham as notícias directamente do Presidente, pois só assim terão «a verdade nua e crua».

4. Donald Trump, Presidente dos EUA, já chamou aos jornalistas tudo o que há de pior. Desonestos, asquerosos, escória, inimigos, lixo, a forma mais baixa de vida, os seres humanos mais desonestos da Terra — eis algumas pérolas de que me lembro.

5. Vale a pena lembrar que os jornalistas visados pelo Presidente trabalham para a CNN, ABC, Associated Press, NBC, Washington Post, New York Times, Politico, Atlantic, New Republican, Los Angeles Times, Financial Times, e a certa altura até para a Fox News, que Trump respeita consoante os dias. Se os media citados não são credíveis (incluindo, vá lá, a Fox News), quais são, então, os media credíveis?

6. Como se percebeu desde a primeira hora, a estratégia de Trump tem sido descredibilizar os media (a última foi acusá-los de serem inimigos do povo americano), até agora razoavelmente bem-sucedida (instalar a dúvida sobre a credibilidade dos media é já uma vitória). Como se verá a seu tempo, não vai durar sempre.

7. Talvez o primeiro sinal de que já viu melhores dias sejam os «factos alternativos», que a administração jurou existirem, mas que os exemplos que foi dando liquidaram logo à nascença (não será por acaso que deixou de falar deles). As baixas causadas pelos media (demissão do conselheiro para a Segurança Nacional e afastamento do procurador-geral da comissão que investiga a interferência russa nas presidenciais) são outro sinal, a que se junta o facto de alguns media de referência terem visto crescer o número de leitores/ouvintes/espectadores, contrariando as recomendações da administração Trump e demonstrando que os leitores/ouvintes/espectadores têm cada vez maior apetência por notícias veiculadas por quem lhes garante maior rigor (leia-se os media tradicionais, mesmo com todos os defeitos).

8. «Factos alternativos» são, evidentemente, mentiras. E não é preciso andar para aí com uma lupa para ver que o Presidente foi, de longe, quem mais beneficiou com os «factos alternativos», para os quais contribui sempre que pode. O Presidente, a extrema-direita e a administração russa, que agora se vira para França e Alemanha, onde há mais trumps para eleger. Não falo de suposições, teorias da conspiração, verdades alternativas. Falo de factos a sério, contra os quais os mandarins de serviço declararam uma guerra que hão-de perder.

23 de fevereiro de 2017

VALE TUDO NOS NEGÓCIOS? Pode não saber mais nada, mas é inegável que Donald Trump foi — talvez ainda seja — um empresário brilhante. Eis o que todos dizem, inclusive quem não votou nele. Como já perceberam, discordo. O alegado brilhantismo de Trump assentou, essencialmente, em três pontos: desastres empresariais que se tornaram em lucrativas falências, fuga (legal, até ver) aos impostos, e muita falta de escrúpulos (3.500 processos judiciais nos últimos 40 anos por falta de pagamento a pequenos empresários, só para dar uma amostra). Práticas que não tornam, para mim, ninguém brilhante, nem sequer respeitável. Como alguns tendem a esquecer e muitos a tolerar, não vale tudo nos negócios. E quando um candidato recusa tornar pública a sua declaração de impostos (uma tradição dos candidatos presidenciais) após ter sido eleito (como prometera fazê-lo durante a campanha), não há como não desconfiar de que algo não vai bem. Somados todos estes factores, a que poderiam juntar-se outros mais, brilhante só no modo como convenceu, e continua a convencer, quem votou nele. Resta saber até quando.

10 de fevereiro de 2017

AVANÇAR ÀS ARRECUAS. Apesar da bazófia e do fogo-de-artifício, o Presidente Trump está a render-se à «realpolitik». A parte má (ou boa, depende de que lado se observa) é que Trump diz hoje uma coisa, no dia seguinte diz outra — e se alguém notar a contradição foi uma invenção dos jornalistas, essa gente desprezível. Dois exemplos só nos últimos dois dias: depois da provocação inicial, os Estados Unidos vão, afinal, respeitar o princípio de uma «China única»; a transferência da embaixada americana de Telavive para Jerusalém vai, afinal, ser estudada «muito seriamente», pois a coisa «não é fácil». É uma espécie de avançar às arrecuas, o que não deixa de ser um avanço — e convenhamos que os recuos têm sido, até ver, melhores que os avanços. O único senão é que isto lhe descobre o que há por debaixo do famoso cabelo: Trump prometeu uma coisa, e está a fazer outra. Para um «não político», que se candidatou contra o que há de pior na política, é obra. E ainda a procissão vai no adro.

26 de janeiro de 2017

PEGAR FOGO AO INCÊNDIO. Reduzir os adversários do Presidente Trump a liberais, socialistas, comunistas, esquerdistas de várias proveniências e minorias de toda a espécie, é tão redutor como dizer-se que os seus apoiantes são da extrema-direita, racistas, xenófobos, misóginos, homofóbicos, supremacistas brancos, membros do Ku Klux Klan. Todas as generalizações são estúpidas, nalguns casos perigosas. Os eleitores de uns e de outros são americanos, que na sua grande maioria votam ora nos democráticos ora nos republicanos — e que o Presidente que nos calhou em sorte tudo tem feito para pôr uns contra os outros. Se a América está primeiro, como prometeu durante a campanha, o Presidente devia cuidar de unir os americanos em vez de tudo fazer para os dividir — fomentando o ódio e a discórdia, disparando contra quem não pensa como ele e se atreve a confrontá-lo com as suas incontáveis mentiras, criando fracturas talvez irremediáveis. Quer-me parecer que tudo isto resulta de ignorância pura e dura, de que Trump já deu mostras para todos os gostos. Mas serve-me de fraco consolo.

20 de janeiro de 2017

TOMAR NOTA. Aldous Huxley publicou, em 1931, Music at Night And Other Essays (Música na noite & outros ensaios na tradução brasileira publicada pela L&PM), excelente volume de ensaios onde se lê a páginas tantas: «Houve um tempo, não muito tempo atrás, no qual o estúpido e o inculto aspiravam a ser considerados inteligente e cultos. A corrente da aspiração mudou sua trajetória. Não é nem um pouco incomum, agora, encontrar pessoas inteligentes e cultas fazendo o melhor que podem para simular estupidez e ocultar o fato de que receberam uma educação. Vinte anos atrás, ainda era um elogio dizer sobre um homem que ele era esperto, instruído, interessado nas questões da mente. Hoje, “erudito” é um termo de abuso desdenhoso.» Não sou um observador deste «fenómeno», mas atrevo-me a dizer que as coisas melhoraram pouco de então para cá. Continua a não se perder uma oportunidade de chamar «erudito» (agora é mais «intelectual», ou «pseudo-intelectual») a quem não se fique pela rama das coisas, obviamente um insulto. Se na época o «fenómeno» se deveria à circunstância de o conhecimento não estar ao alcance de todos, hoje, que está ali ao virar da esquina, custa entender. Comparem-se, por exemplo, os políticos/governantes de hoje aos políticos/governantes das últimas décadas. Não estariam os de ontem melhor preparados que os de hoje? Olhando um pouco para trás, constata-se que o conhecimento actualmente disponível não é proporcional ao conhecimento adquirido — e pouco se evoluiu de então para cá. Por que será?

10 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES. Goste-se, ou não (pessoalmente não apreciei sobretudo a fase final da sua actividade política), morreu um dos principais obreiros da democracia portuguesa, a quem os portugueses devem não ter passado de uma ditadura para outra. Só por isto, que não foi pouco, merece o respeito de quem não vacila entre a democracia e outro regime qualquer, entre a liberdade e a falta dela. Mas se nesta hora também há quem verta lágrimas de ocasião e a hipocrisia atingiu níveis insuportáveis, é chocante que alguns o tentem enlamear com «evidências» de um passado que nunca teve. Acusá-lo do piorio com base em boatos facilmente desmentíveis e «factos» não verificáveis (repito: boatos facilmente desmentíveis e «factos» não verificáveis), é simplesmente indecente. Isto para dizer o mínimo.

5 de janeiro de 2017

OS FACTOS. Não sei se os ciberataques russos a centros vitais da política americana terão, ou não, influenciado o desfecho das Presidenciais de Novembro, muito menos se terão contribuído para a vitória de Trump e consequente derrota de Hillary. Mas há um facto impossível de ignorar: variadíssimas agências governamentais americanas, CIA e NSA à cabeça, reiteraram hoje mesmo, perante o Senado, a existência de ciberataques durante a campanha eleitoral provenientes de altos funcionários do governo russo. Bem sei que os entusiastas de pós-verdades e aldrabices afins, cada vez em maior número, hão-de acreditar na mais mirabolante das histórias que se hão-de inventar para negar a evidência, e em última análise cada um crê no que quer. Mas nem por isso os factos, até ver insubstituíveis, deixam de ser o que são.

2 de dezembro de 2016

NA MORTE DE FIDEL. Vários anos após ter lido tudo o que então tive acesso (Animal Tropical, Trilogia Suja de Havana, O Rei de Havana e O Insaciável Homem-Aranha, que com Carne de Cão constituem o chamado Ciclo de Centro Habana), regresso a Pedro Juan Gutiérrez, agora para ler Corazón Mestizo. Devoradas algumas dezenas de páginas, o livro não desilude, apesar da minha luta constante com o espanhol. Pelo menos mais dois títulos na calha: Carne de Cão e El nido de la serpiente. E agora, para celebrar o espírito da época, vou-me ali a um puro, hecho en Nicaragua, que me garantem pedir meças aos melhores dos melhores.

22 de novembro de 2016

A PÓS-VERDADE. Nunca, como hoje, foi possível verificar os factos de forma tão rápida e eficiente, e nunca, como hoje, os factos valeram tão pouco. Veja-se, por exemplo, Donald Trump. Mentiu descaradamente durante a campanha presidencial, os jornalistas descobriram-lhe a careca, e aconteceu o quê? Rigorosamente nada. Quem o achava assim ou assado não mudou de opinião, e não foram as constantes mentiras logo descobertas que mudaram alguma coisa. Chegámos a um tempo em que uma mentira no Facebook ou uma irrelevância no Twitter têm mais credibilidade e/ou importância que o jornalismo, crucial em democracia por mais falhas que tenha. Chegámos, como agora se diz, à pós-verdade, a um tempo em que as mentiras valem tanto, se não mais, que o melhor jornalismo. Será uma fase passageira. Mas tudo indica que vai deixar estragos irremediáveis.

17 de novembro de 2016

VIRA O DISCO E TOCA O MESMO. Afinal, o chamado Obamacare, que Trump prometeu exterminar (agora diz ser parcialmente aproveitável), não é tão mau como parecia. Afinal, Hillary Clinton, que Trump ameaçou pôr na cadeia, é «boa pessoa», pelo que não moverá uma palha para que isso suceda. Afinal, Barack Obama, até há pouco a encarnação do demónio, «fez coisas maravilhosas durante a sua Administração». Tudo isto uma semana após ser eleito, o que desde logo levanta uma questão: o que pensará destas bruscas — e escassamente fundamentadas — mudanças de opinião quem votou nele? Achará normal? Oxalá me engane, mas desconfio que grande parte dos votantes de Trump serão as primeiras vítimas de Trump.

10 de novembro de 2016

O PIOR DOS REGIMES EXCLUÍDOS TODOS OS OUTROS. Não há, até ver, o mais pequeno sinal de que tenha havido fraude eleitoral, pelo que a vitória de Donald Trump é incontestável. Mas fosse Hillary Clinton a vencer pela margem que Trump venceu, e estaríamos a assistir à contestação dos resultados — como Trump, aliás, ameaçou durante a campanha. Contestação que poderia não ser pacífica, como a que está a ocorrer em alguns pontos do país, mesmo assim lamentável. Não gostam de Donald Trump? Eu também não. Mas é preciso não esquecer que Trump foi eleito democraticamente. Repito: democraticamente. Será, por isso, o meu presidente. Por mais que isso me custe.

26 de outubro de 2016

TAPAR O NARIZ E FAZER A CRUZINHA. Se nada mudar até lá, em Novembro votarei Hillary Clinton, porque Donald Trump está fora de questão. Devo dizer, no entanto, que o farei contrariado, e não acredito que Hillary ponha em prática uma só medida que Bernie Sanders lhe terá imposto em troca do seu apoio. Duplicar o salário mínimo? Medicare aos 55 em vez de 65? Legalização da marijuana em todos os estados? Demagogia, demagogia, demagogia. Isto para já não falar das trapalhadas em que se meteu, e quando digo trapalhadas, desvalorizo muitíssimo. Talvez eu seja pobre a pedir (e escandalize muita gente), mas se Hillary conseguir manter as coisas como estão, já não é pouco.

14 de outubro de 2016

TRÂNSFUGAS. Se Donald Trump é tão mau como muitos republicanos o pintam (e eu nunca duvidei que é), por que não votam eles na candidata do Partido Democrático? A pergunta pode parecer absurda (os fanáticos acharão sempre que os seus são melhores que os outros mesmo quando tudo indica o contrário), mas ainda me parece mais absurdo votar num candidato mau só porque é «dos nossos». Quem põe o país acima da paróquia, só pode, a meu ver, pensar deste modo. Hillary Clinton tem todos os defeitos que quiserem. Pessoalmente, acho que tem muitos. Mas comparada com Trump, até os defeitos são virtudes. A recente descolagem da candidatura de Trump por parte de algumas figuras proeminentes do Partido Republicano, por causa da «conversa de caserna», peca por tardia. Descobriram agora que o sujeito não serve? Tratando-se de quem se trata, isto é, de gente experimentada na política, não se pode dizer que tenham andado distraídos. Restam, portanto, duas hipóteses: ou aproveitaram a ocasião para se desvincularem de uma derrota anunciada, e nesse caso moveu-os o puro instinto de sobrevivência política; ou ganharam, de repente, vergonha na cara, e nesse caso não se percebe por que demoraram tanto.

2 de outubro de 2016

A EUTANÁSIA E A FALTA DE SERIEDADE. A discussão sobre a hipotética legalização da chamada morte assistida (ou eutanásia) mal começou e logo se puseram aos gritos. Gonçalo Portocarrero de Almada, sacerdote católico, escreveu que a eutanásia não se distingue de um homicídio, e que pouco se diferencia da que foi praticada pelos nazis. Vasco Pinto de Magalhães, padre jesuíta, caracterizou os que pretendem pôr termo à vida por tal método como «suicidas obsessivos». Laurinda Alves, jornalista, afirmou, de modo ofensivo, que os defensores de tal prática pretendem empurrar os desesperados que querem atirar-se de uma ponte em vez de procurar impedi-los. Anteontem, José Maria Seabra Duque, subscritor de uma petição contra a legalização da morte assistida, escreveu, no Público, que os defensores da ideia pretendem a «legalização do homicídio». Como é óbvio, as questões que envolvem a morte assistida são mais vastas do que estes senhores nos querem impingir. Não é preciso torturar os miolos para constatar que há fortíssimas razões de quem defende tal prática e fortíssimas razões de quem a rejeita — que devem, umas e outras, ser discutidas com seriedade, respeitando a ideia do outro. Não tenho uma posição definitiva sobre este assunto, mas à medida que vou conhecendo o argumentário de um lado e do outro, sou, tendencialmente, a favor da morte assistida. Mesmo que os cuidados paliativos melhorem substancialmente, como todos defendem e desejam. A minha dúvida não está no princípio, mas na prática e suas variantes — que mudam de país para país, e nalguns casos me deixam dúvidas. Dada a complexidade do assunto, não espero que do debate em curso na sociedade portuguesa se conclua o que quer que seja. Mas espero que seja esclarecedor, de modo a que cada um possa, por si só, concluir o que muito bem achar. E é preciso dizer — talvez sublinhar — que ninguém será obrigado a recorrer à eutanásia caso ela venha a ser legalizada, como alguns mentirosos insinuam. «O Estado deve promover a morte dos cidadãos que queiram pôr termo à sua vida?», pergunta Seabra Duque. Como é óbvio, legalizar a morte assistida não significa promovê-la. O jurista está, portanto, a confundir, deliberadamente, quem está pouco informado, talvez porque lhe faltem argumentos melhores. Como não bastasse, ainda tem o descaramento de dizer que «os portugueses merecem um debate sério». Como se tivesse autoridade para tanto.

29 de setembro de 2016

O DEBATE. Tenho para mim que nos debates cada um vê o que quer ver, e eu não serei excepção. Mas cá vai na mesma o que vi no tão aguardado debate de segunda-feira. Donald Trump não explicou por que não torna pública a sua declaração de rendimentos (como manda a tradição dos presidenciáveis), e ainda adensou as suspeitas de que tem algo a esconder (as autoridades estão a investigar). Justificou o não pagamento dos impostos federais como um acto de inteligência da sua parte, logo quem paga impostos ao Governo só pode ser estúpido. A tentativa de explicar, pela enésima vez, o episódio sobre a nacionalidade do Presidente Obama, que a sua opositora ouviu com indisfarçável deleite, roçou o patético. Sobre a violência racial, mostrou-se preocupado com os casos de Charlotte e Chicago, onde disse, certamente não por acaso, ter negócios, que a violência perturba. Foi incapaz de explorar as (inúmeras) fraquezas da adversária, especialmente quando ela apelidou os apoiantes de Trump de «racistas, sexistas, homofóbicos, xenófobos, islamofóbicos» e espécimes assim, na minha opinião uma burrice de todo o tamanho. Depois gastou grande parte do tempo a justificar, quase sempre mal, as trapalhadas em que se meteu em vez de contra-atacar. Negou, por exemplo, ter apoiado a guerra do Iraque, quando há provas (repito: provas) que demonstram o contrário. Até na resistência física, que segundo ele a adversária não tem, levou por tabela. Já Hillary, por quem não nutro especial simpatia, excedeu as expectativas. Por mérito próprio, mas, sobretudo, à custa do medíocre desempenho do adversário. Mostrou-se segura no essencial (pelo menos passou essa imagem). Foram várias as vezes em que assistiu com gozo evidente às tentativas de Trump explicar o inexplicável — metendo os pés pelas mãos, esbracejando para não se afundar. Acusou o adversário em casos concretos (racismo, xenofobia, misoginia, fuga aos impostos, etc.), enquanto Trump se limitou a fazer-lhe acusações vagas e pouco fundamentadas. Foi, em resumo, um debate que Hillary ganhou em toda linha, devo dizer que com alguma surpresa. Resta saber se mudou, e de que modo, a opinião de quem vota a 8 de Novembro.

25 de setembro de 2016

TOSTÕES E MILHÕES. Concordo com a generalidade das críticas que são feitas ao juiz Carlos Alexandre, mas numa coisa parece-me certo: há sempre uns milhões (expressão dele) para salvar bancos na falência, mas não há uns tostões (novamente expressão dele) para resolver a «gritante falta de meios» no sector da justiça, sobretudo na investigação. Inquirido se a desproporção entre tostões e milhões tem por finalidade fragilizar a capacidade de investigação, o juiz chutou para canto, atribuindo a endémica falta de meios à não menos endémica escassez de recursos. Mas eu chuto à baliza: convém a quem tem poder que a justiça funcione mal. Graças aos meios de que dispõem para se defender (bons advogados, dinheiro), assim têm muitíssimo mais probabilidades de escapar aos crimes de que possam ser acusados, e os exemplos conhecidos são mais que muitos. Haverá, certamente, excepções. Mas de momento não me ocorre nenhuma.