2 de dezembro de 2016

NA MORTE DE FIDEL. Vários anos após ter lido tudo o que então tive acesso (Animal Tropical, Trilogia Suja de Havana, O Rei de Havana e O Insaciável Homem-Aranha, que com Carne de Cão constituem o chamado Ciclo de Centro Habana), regresso a Pedro Juan Gutiérrez, agora para ler Corazón Mestizo. Devoradas algumas dezenas de páginas, o livro não desilude, apesar da minha luta constante com o espanhol. Pelo menos mais dois títulos na calha: Carne de Cão e El nido de la serpiente. E agora, para celebrar o espírito da época, vou-me ali a um puro, hecho en Nicaragua, que me garantem pedir meças aos melhores dos melhores.

22 de novembro de 2016

A PÓS-VERDADE. Nunca, como hoje, foi possível verificar os factos de forma tão rápida e eficiente, e nunca, como hoje, os factos valeram tão pouco. Veja-se, por exemplo, Donald Trump. Mentiu descaradamente durante a campanha presidencial, os jornalistas descobriram-lhe a careca, e aconteceu o quê? Rigorosamente nada. Quem o achava assim ou assado não mudou de opinião, e não foram as constantes mentiras logo descobertas que mudaram alguma coisa. Chegámos a um tempo em que uma mentira no Facebook ou uma irrelevância no Twitter têm mais credibilidade e/ou importância que o jornalismo, crucial em democracia por mais falhas que tenha. Chegámos, como agora se diz, à pós-verdade, a um tempo em que as mentiras valem tanto, se não mais, que o melhor jornalismo. Será uma fase passageira. Mas tudo indica que vai deixar estragos irremediáveis.

17 de novembro de 2016

VIRA O DISCO E TOCA O MESMO. Afinal, o chamado Obamacare, que Trump prometeu exterminar (agora diz ser parcialmente aproveitável), não é tão mau como parecia. Afinal, Hillary Clinton, que Trump ameaçou pôr na cadeia, é «boa pessoa», pelo que não moverá uma palha para que isso suceda. Afinal, Barack Obama, até há pouco a encarnação do demónio, «fez coisas maravilhosas durante a sua Administração». Tudo isto uma semana após ser eleito, o que desde logo levanta uma questão: o que pensará destas bruscas — e escassamente fundamentadas — mudanças de opinião quem votou nele? Achará normal? Oxalá me engane, mas desconfio que grande parte dos votantes de Trump serão as primeiras vítimas de Trump.

10 de novembro de 2016

O PIOR DOS REGIMES EXCLUÍDOS TODOS OS OUTROS. Não há, até ver, o mais pequeno sinal de que tenha havido fraude eleitoral, pelo que a vitória de Donald Trump é incontestável. Mas fosse Hillary Clinton a vencer pela margem que Trump venceu, e estaríamos a assistir à contestação dos resultados — como Trump, aliás, ameaçou durante a campanha. Contestação que poderia não ser pacífica, como a que está a ocorrer em alguns pontos do país, mesmo assim lamentável. Não gostam de Donald Trump? Eu também não. Mas é preciso não esquecer que Trump foi eleito democraticamente. Repito: democraticamente. Será, por isso, o meu presidente. Por mais que isso me custe.

26 de outubro de 2016

TAPAR O NARIZ E FAZER A CRUZINHA. Se nada mudar até lá, em Novembro votarei Hillary Clinton, porque Donald Trump está fora de questão. Devo dizer, no entanto, que o farei contrariado, e não acredito que Hillary ponha em prática uma só medida que Bernie Sanders lhe terá imposto em troca do seu apoio. Duplicar o salário mínimo? Medicare aos 55 em vez de 65? Legalização da marijuana em todos os estados? Demagogia, demagogia, demagogia. Isto para já não falar das trapalhadas em que se meteu, e quando digo trapalhadas, desvalorizo muitíssimo. Talvez eu seja pobre a pedir (e escandalize muita gente), mas se Hillary conseguir manter as coisas como estão, já não é pouco.

14 de outubro de 2016

TRÂNSFUGAS. Se Donald Trump é tão mau como muitos republicanos o pintam (e eu nunca duvidei que é), por que não votam eles na candidata do Partido Democrático? A pergunta pode parecer absurda (os fanáticos acharão sempre que os seus são melhores que os outros mesmo quando tudo indica o contrário), mas ainda me parece mais absurdo votar num candidato mau só porque é «dos nossos». Quem põe o país acima da paróquia, só pode, a meu ver, pensar deste modo. Hillary Clinton tem todos os defeitos que quiserem. Pessoalmente, acho que tem muitos. Mas comparada com Trump, até os defeitos são virtudes. A recente descolagem da candidatura de Trump por parte de algumas figuras proeminentes do Partido Republicano, por causa da «conversa de caserna», peca por tardia. Descobriram agora que o sujeito não serve? Tratando-se de quem se trata, isto é, de gente experimentada na política, não se pode dizer que tenham andado distraídos. Restam, portanto, duas hipóteses: ou aproveitaram a ocasião para se desvincularem de uma derrota anunciada, e nesse caso moveu-os o puro instinto de sobrevivência política; ou ganharam, de repente, vergonha na cara, e nesse caso não se percebe por que demoraram tanto.

2 de outubro de 2016

A EUTANÁSIA E A FALTA DE SERIEDADE. A discussão sobre a hipotética legalização da chamada morte assistida (ou eutanásia) mal começou e logo se puseram aos gritos. Gonçalo Portocarrero de Almada, sacerdote católico, escreveu que a eutanásia não se distingue de um homicídio, e que pouco se diferencia da que foi praticada pelos nazis. Vasco Pinto de Magalhães, padre jesuíta, caracterizou os que pretendem pôr termo à vida por tal método como «suicidas obsessivos». Laurinda Alves, jornalista, afirmou, de modo ofensivo, que os defensores de tal prática pretendem empurrar os desesperados que querem atirar-se de uma ponte em vez de procurar impedi-los. Anteontem, José Maria Seabra Duque, subscritor de uma petição contra a legalização da morte assistida, escreveu, no Público, que os defensores da ideia pretendem a «legalização do homicídio». Como é óbvio, as questões que envolvem a morte assistida são mais vastas do que estes senhores nos querem impingir. Não é preciso torturar os miolos para constatar que há fortíssimas razões de quem defende tal prática e fortíssimas razões de quem a rejeita — que devem, umas e outras, ser discutidas com seriedade, respeitando a ideia do outro. Não tenho uma posição definitiva sobre este assunto, mas à medida que vou conhecendo o argumentário de um lado e do outro, sou, tendencialmente, a favor da morte assistida. Mesmo que os cuidados paliativos melhorem substancialmente, como todos defendem e desejam. A minha dúvida não está no princípio, mas na prática e suas variantes — que mudam de país para país, e nalguns casos me deixam dúvidas. Dada a complexidade do assunto, não espero que do debate em curso na sociedade portuguesa se conclua o que quer que seja. Mas espero que seja esclarecedor, de modo a que cada um possa, por si só, concluir o que muito bem achar. E é preciso dizer — talvez sublinhar — que ninguém será obrigado a recorrer à eutanásia caso ela venha a ser legalizada, como alguns mentirosos insinuam. «O Estado deve promover a morte dos cidadãos que queiram pôr termo à sua vida?», pergunta Seabra Duque. Como é óbvio, legalizar a morte assistida não significa promovê-la. O jurista está, portanto, a confundir, deliberadamente, quem está pouco informado, talvez porque lhe faltem argumentos melhores. Como não bastasse, ainda tem o descaramento de dizer que «os portugueses merecem um debate sério». Como se tivesse autoridade para tanto.

29 de setembro de 2016

O DEBATE. Tenho para mim que nos debates cada um vê o que quer ver, e eu não serei excepção. Mas cá vai na mesma o que vi no tão aguardado debate de segunda-feira. Donald Trump não explicou por que não torna pública a sua declaração de rendimentos (como manda a tradição dos presidenciáveis), e ainda adensou as suspeitas de que tem algo a esconder (as autoridades estão a investigar). Justificou o não pagamento dos impostos federais como um acto de inteligência da sua parte, logo quem paga impostos ao Governo só pode ser estúpido. A tentativa de explicar, pela enésima vez, o episódio sobre a nacionalidade do Presidente Obama, que a sua opositora ouviu com indisfarçável deleite, roçou o patético. Sobre a violência racial, mostrou-se preocupado com os casos de Charlotte e Chicago, onde disse, certamente não por acaso, ter negócios, que a violência perturba. Foi incapaz de explorar as (inúmeras) fraquezas da adversária, especialmente quando ela apelidou os apoiantes de Trump de «racistas, sexistas, homofóbicos, xenófobos, islamofóbicos» e espécimes assim, na minha opinião uma burrice de todo o tamanho. Depois gastou grande parte do tempo a justificar, quase sempre mal, as trapalhadas em que se meteu em vez de contra-atacar. Negou, por exemplo, ter apoiado a guerra do Iraque, quando há provas (repito: provas) que demonstram o contrário. Até na resistência física, que segundo ele a adversária não tem, levou por tabela. Já Hillary, por quem não nutro especial simpatia, excedeu as expectativas. Por mérito próprio, mas, sobretudo, à custa do medíocre desempenho do adversário. Mostrou-se segura no essencial (pelo menos passou essa imagem). Foram várias as vezes em que assistiu com gozo evidente às tentativas de Trump explicar o inexplicável — metendo os pés pelas mãos, esbracejando para não se afundar. Acusou o adversário em casos concretos (racismo, xenofobia, misoginia, fuga aos impostos, etc.), enquanto Trump se limitou a fazer-lhe acusações vagas e pouco fundamentadas. Foi, em resumo, um debate que Hillary ganhou em toda linha, devo dizer que com alguma surpresa. Resta saber se mudou, e de que modo, a opinião de quem vota a 8 de Novembro.

25 de setembro de 2016

TOSTÕES E MILHÕES. Concordo com a generalidade das críticas que são feitas ao juiz Carlos Alexandre, mas numa coisa parece-me certo: há sempre uns milhões (expressão dele) para salvar bancos na falência, mas não há uns tostões (novamente expressão dele) para resolver a «gritante falta de meios» no sector da justiça, sobretudo na investigação. Inquirido se a desproporção entre tostões e milhões tem por finalidade fragilizar a capacidade de investigação, o juiz chutou para canto, atribuindo a endémica falta de meios à não menos endémica escassez de recursos. Mas eu chuto à baliza: convém a quem tem poder que a justiça funcione mal. Graças aos meios de que dispõem para se defender (bons advogados, dinheiro), assim têm muitíssimo mais probabilidades de escapar aos crimes de que possam ser acusados, e os exemplos conhecidos são mais que muitos. Haverá, certamente, excepções. Mas de momento não me ocorre nenhuma.

15 de setembro de 2016

AS MELHORAS. Fernando Lima, então assessor do ex-Presidente Cavaco, passou seis anos «no sótão» da Presidência da República «sem qualquer função atribuída» (palavras do próprio). Isto porque «plantou» no Público, a coberto do anonimato e por «indicação superior» (leia-se Cavaco), que o Presidente estaria a ser vigiado pelo Governo Sócrates, o DN descobriu-lhe a careca, e o então Presidente, após uma patética comunicação ao país sobre tão malcheiroso assunto, decidiu retirar-lhe a assessoria de imprensa e mandá-lo literalmente para o sótão (sabia demais para o mandar embora). Ora, este rocambolesco episódio, cuja versão de Lima agora conhecemos (acaba de publicar um livro onde conta a sua versão do que então terá ocorrido), encerra um facto pouco referido: tendo sido afastado do cargo que exercia e remetido para outro mais ou menos inexistente (o próprio Lima admitiu que assim foi), por que se manteve como colaborador de Cavaco por mais seis anos? Dir-me-ão que não ocupava um cargo político para que pudesse demitir-se ou ser demitido. Mas um sujeito que foi muito mais que um mero funcionário, e que não teve problema em viver meio ano à sombra do erário público sem nada que o justificasse, não tem autoridade moral para vir agora armar-se em vítima. Por aquilo que vi citado, o livro agora editado só traz uma novidade, se calhar nem isso: Fernando Lima mantém a mesma coluna vertebral que não teve na altura.

12 de julho de 2016

RESCALDO APÓS O RESCALDO. Agora que toda a gente se desfez em elogios e a poeira parece ter assentado, devo dizer que não dava um tostão por Fernando Santos, até por chegar à selecção com vários jogos de castigo para cumprir numa fase em que o apuramento para o Europeu estava em risco. Como se viu, enganei-me, e aqui me penitencio. Digo mais: embora agora seja fácil dizer isto, fez bem o seleccionador em colocar a fasquia lá em cima ainda antes do início da fase final. Se as coisas podiam não ter corrido bem, qualquer aprendiz de psicólogo também saberá que só colocando a fasquia lá em cima seria possível ultrapassá-la. Depois houve Éder, que ninguém sabe por que foi seleccionado (nem depois do golo que nos valeu o caneco me convenceu), e Renato Sanches, que toda a gente incensou e não foi, para mim, mais que uma vaga promessa. As boas surpresas foram Raphael Guerreiro, um luso-francês até há pouco a jogar numa obscura equipa francesa, e Rui Patrício, que por várias vezes evitou o pior. De resto, Pepe e Ronaldo confirmaram o que deles se esperava. O primeiro porque quando não se mete em sarilhos é um gigante. O segundo por tudo o que já demonstrou, inclusive no jogo da final, onde não foi decisivo dentro do campo (saiu lesionado) mas foi decisivo fora dele. Bem sei que, somado o que tivemos de melhor, não passámos de uma selecção mediana, que se limitou a cumprir sem brilho mas com eficácia. Mas o futebol bonito, que outrora também praticámos, há muito que não é eficaz. Os jogadores e os treinadores de hoje não são contratados para jogar — e fazer jogar — bom futebol, ou um futebol, digamos, vistoso. São contratados para ganhar. Como em tempos disse Mourinho, quem aprecia arte que vá ao ballet. De facto, o futebol ao mais alto nível sacrificou a arte no altar da eficácia. Para grande pena minha, devo dizer.

1 de julho de 2016

COISAS ESTÚPIDAS. «É costume ler por aí» que a Inglaterra é «um exemplo de democracia perfeita», escreveu Pedro Tadeu no DN. E escreveu mais: o actual sistema político inglês «é formalmente tão democrático como o processo que leva os herdeiros de Kim Il Sung a mandarem na Coreia do Norte». Não sei onde o colunista costuma informar-se, mas nunca vi quem afirmasse tal coisa, muito menos de forma que diz recorrente. Exemplos do que fala vinham, por isso, a calhar, até porque não estou certo que os tem. Depois, comparar o regime inglês ao que vigora na Coreia do Norte é muito mais que desonestidade intelectual: é branquear o regime do demente que lá manda. «A democracia inglesa é exemplo para alguém?», pergunta o cronista logo no título. A responda não será tão óbvia como sugere, e até nem me consta que os ingleses se queixem. A não ser que ele ache que os ingleses são estúpidos. O que seria demasiado estúpido.

24 de junho de 2016

JORNALISMO NO CHARCO. O Correio da Manhã (CM) resolveu ameaçar quem, nas redes sociais, espalhou «boatos, calúnias e mentiras» contra o jornal a propósito de Cristiano Ronaldo, suponho que na sequência do microfone que o futebolista arremessou para um charco. Desconheço a gravidade do que foi dito para o jornal ameaçar com os tribunais, mas se chegou onde chegou, presumo que foi grave. Acontece que o CM poderá ter todos os motivos para processar quem o terá difamado, mas não tem autoridade moral para se queixar de boatos, calúnias e mentiras. Afinal, o CM vive disso, por regra impunemente. Não aplaudo o comportamento de Ronaldo — que tem, é bom não esquecer, um longo historial de problemas com o CM, que a generalidade dos media ignorou. Mas que o episódio do microfone foi um atentado à liberdade de imprensa, como diz o CM e o presidente da Comissão da Carteira de Jornalista (que estranhamente não se tem pronunciado em casos bem mais graves), vou ali e já venho. É preciso ver que o repórter que se aproximou de Ronaldo violou os regulamentos para que isso fosse possível, pelo que em matéria de atentados foi o repórter quem começou. E, já agora, violou os regulamentos porquê? Porque teria uma pergunta cujos meios justificassem os fins? Como pudemos ouvir, a pergunta foi sobre nada, pelo que a resposta só poderia ser coisa nenhuma. Um microfone afocinhado na lama no fundo de um charco acabou, assim, por se tornar uma caricatura, a meu ver bastante benévola, do «jornalismo» que se pratica no Correio da Manhã.

16 de junho de 2016

CONFUNDIR O CU COM AS CALÇAS. O massacre de Orlando levanta dois problemas óbvios: a venda de armas, e o terrorismo islâmico. Do primeiro, fala-se abertamente. Do segundo, ignora-se até o impossível de ignorar. Porque o primeiro é um assunto mais ou menos popular (e mais ou menos consensual), e o segundo coloca o dedo em dois pontos hipersensíveis: a existência do islão radical, sempre pronto a matar; e a questão da homossexualidade, que não tem lugar nessa visão do islão — e por isso deve ser exterminada. Mas parece que a matança da Florida levantou um terceiro problema, menos óbvio e raramente discutido: a existência de homossexuais muçulmanos, cuja denúncia ou «saída do armário» pagam com a vida. É um bom sinal. Com seria um bom sinal discutir a sério o papel da mulher no islão (os crimes de honra, a homofobia, o machismo generalizado), outro assunto politicamente incorrecto de que os campeões da modernidade fogem como o diabo da cruz. A questão da venda de armas nos EUA deve ser encarada a sério? Com certeza que deve, embora esteja por demonstrar a relação causa-efeito, isto é, que a proibição de vender armas contribuiria para a redução dos crimes de sangue — e é bom lembrar que não há lei que impeça que se cometam massacres como o de Orlando. Mas o islamismo radical tem, igualmente, de ser encarado de frente, até porque neste caso está amplamente demonstrada a relação causa-efeito. Dir-me-ão que a proliferação de armas na sociedade civil mata mais gente que o islão radical, e contra factos não há nada a dizer. Só que discutir as armas em vez do islão radical a propósito da matança de Orlando, é confundir o acessório com o essencial. E o essencial neste caso é que o islão radical continua a matar perante o faz-de-conta de uma larga camada de bem-pensantes, que recusam trocar as reconfortantes certezas em que vivem pela mais cruel evidência.

3 de junho de 2016

PARECE QUE VALE TUDO. Lembro-me de um jornalista ter confrontado Donald Trump com um facto aparentemente embaraçoso envolvendo um dos seus muitos negócios e de o multimilionário ter respondido: «It's business.» Por momentos, o jornalista embatucou, mas logo passou adiante — como achasse que a pergunta estava respondida, e de modo irrefutável. Ora, a resposta de Trump não me convenceu, e a satisfação (ou resignação, não percebi bem) do jornalista até me surpreendeu. Vale tudo nos negócios? Devo dizer que não me choca por aí além o vale tudo nos negócios quando se trata de alguém que não é candidato a nada. Mas como não questionar quem é candidato a um cargo político que é suspeito de nas suas actividades profissionais ter desempenhos eticamente reprováveis? Imagino que Donald Trump está cheio destes casos, e até há suspeitas de casos piores. Mas, a avaliar pelo encolher de ombros do jornalista e pelo silêncio sepulcral que o episódio causou, isto não conta para nada. Os negócios tornaram-se uma espécie de religião que ninguém questiona, muito menos descrê. Muitíssimo apropriada uma passagem de Claudio Magris em A História Não Acabou: «O empresário é personagem de todo o respeito e de central importância no âmbito da colectividade que lhe é própria; torna-se uma figura ridícula (...) se for proposto como modelo universal humano.» É onde estamos.

25 de maio de 2016

PROGNÓSTICOS A POSTERIORI. Consta que ninguém do Partido Republicano prestou a devida atenção ao «fenómeno» Trump, e o resultado está à vista: é tarde para o travar. A explicação é plausível. Mas a verdade é que não me lembro de ver ninguém (politólogo ou aparentado, independente ou politicamente comprometido) avisar atempadamente para o perigo Trump, como alguns agora tentam fazer crer, embora sem darem um único exemplo. O que se viu até há pouco foi a ausência total de qualquer análise a sério sobre a candidatura do multimilionário, a meu ver muito por culpa dos media ditos de referência, que levaram demasiado tempo a levá-lo a sério. Ninguém, absolutamente ninguém, previu que Trump chegasse onde chegou, provavelmente a começar pelo próprio. Os especialistas (assim ditos para simplificar) que agora andam por aí a dar raspanetes aos supostos incautos fazem-me lembrar o célebre futebolista que, à cautela, só fazia prognósticos no final do jogo. É que pior do que não ser capaz de acertar um prognóstico, por definição antes do jogo, só mesmo agora dizer-se que se fez (e acertou) mas ninguém sabe onde nem quando. Mas imaginemos que se tem prestado a devida atenção a Donald Trump. Teria sido diferente? Ter-se-ia evitado que chegasse onde chegou? Como não sucedeu, impossível saber. Há, no entanto, um facto que se vai demonstrando um pouco por todo o lado: apesar da proliferação de especialistas, de quem é legítimo esperar-se prognósticos mais assertivos, a política continua a ser muito imprevisível. Até para os melhores.

17 de maio de 2016

O CORREIO DA MANHÃ SEMPRE A ENOJAR. Discordo com frequência do que escreve Daniel Oliveira, como se pode ver no blogue que mantenho desde 2002. Mas subscrevo o que disse no Expresso sobre o caso Fernanda Câncio vs Correio da Manhã. Devo acrescentar que também discordo, ainda com mais frequência, de Fernanda Câncio, e repetir que respeito algumas pessoas que colaboram com o Correio da Manhã e com a Correio da Manhã TV. Dito isto, insisto no que já disse: o «jornalismo» que lá se pratica causa-me nojo. Desde o esquema que encontraram para ter acesso ao processo que envolve Sócrates e companhia (dois jornalistas constituíram-se assistentes no processo só para terem acesso a informação privilegiada, que depois divulgam violando impunemente a lei), à insistência em linchar na praça pública quem não é, segundo a justiça, suspeito de coisa nenhuma (o caso de Fernanda Câncio, com a agravante de contar com a escandalosa conivência da mesmíssima justiça), passando pela arrogância de quem lá manda (bem patente numa recente entrevista ao i). O Correio da Manhã e derivados vendem às mãos-cheias, até às elites? Também os livros e as músicas de alguns vendem muitíssimo, até às elites, e nem por isso deixam de ser a merda que são. Votos de que os que hoje aplaudem as abjecções que nos querem vender como jornalismo não sejam, amanhã, vítimas dele.

10 de maio de 2016

CONCORDAR PORQUE SIM. Deixei de prestar atenção às razões dos que se opõem ao Acordo Ortográfico de 1990 (daqui em diante o Acordo). Porque julgo conhecê-las todas, e quem as conhece sabe que não são poucas. Já a favor, mal se publica algo vou logo ver, sempre na esperança de descobrir um argumento que me tenha escapado ou algum novo que mereça atenção. Foi o que fiz com o texto de Bacelar Gouveia, no DN da semana passada. Sem surpresa, nada que já não tenha sido dito. O alfabeto aumentou de 23 para 26 letras, congratula-se o professor. Depois, «é muito boa ideia não escrever letras que não se pronunciam, até por uma razão de economia de esforços». Como «há já vários anos que a nova ortografia é utilizada nos manuais e no ensino, e há já algumas gerações de alunos que aprenderam o português na nova ortografia (...), o pai ou a mãe poderem aprender com os seus filhos (...) a nova ortografia portuguesa!», escreveu Bacelar Gouveia, exclamação incluída. E considerou «legítimas e boas as suas finalidades» (que não enunciou), «bem como muito lógicas as suas soluções» (nem um exemplo para amostra). Terminou a arenga desta maneira: «(...) as queixas, os queixumes, as lamúrias, os remoques ou as piadas vêm basicamente de dois setores: os que são mais velhos, isso se compreendendo pela sua maior dificuldade e resistência à mudança; também de uma certa elite pensante que erigiu o Acordo Ortográfico a tema e moda de discussão fundamental, à falta de capacidade para terçar armas por coisas mais substanciais que verdadeiramente interessam a Portugal». Espreitei a página dele na internet, e fiquei esmagado com tão impressionante currículo. Logo à entrada, fiquei a saber que o «cidadão empenhado» está receptivo a todos os contributos e sugestões que queiram enviar-lhe, pois acredita «que é no espaço público do diálogo e dos valores que podemos construir um mundo melhor». Assim sendo, cá vai uma sugestão: que tal terçar armas em defesa do Acordo com argumentos a sério? Talvez os opositores da pantomina sejam «basicamente» os «mais velhos» (por mera resistência à mudança) e uma «certa elite» (presumo que ociosa ou ignorante). Mas o cidadão empenhado há-de ter reparado que uns e outros o fazem com argumentos, dezenas deles. Já o professor, nem um para amostra.

6 de maio de 2016

VELHICE (4). Até uma certa idade, averigua-se a qualidade do vinho. A partir de uma certa idade, averigua-se a qualidade da água.

1 de maio de 2016

A REALIDADE NÃO INTERESSA PARA NADA. Daniel Oliveira escreveu, no Expresso, que a Uber é «um recuo civilizacional», que pode ser «encontrada (...) na generalidade dos países do terceiro mundo». Dois disparates seguidos, de certo modo surpreendentes. O recuo civilizacional é uma tolice tão óbvia que dispensa comentário. Já sobre os países do terceiro mundo, Daniel Oliveira citou dois exemplos que podem, segundo ele, ser comparados à Uber: o tuk-tuk em Bombaim, e o «chapa» em Moçambique. Como é evidente, são coisas distintas, como tal não podem ser comparadas. Mas eu dou-lhe um exemplo a sério de um país «do terceiro mundo» onde o serviço é cada vez mais utilizado: os Estados Unidos da América, por acaso onde nasceu a Uber. Como deixou claro no texto, o colunista tem um problema com a Uber porque a Uber é uma «empresa multimilionária», e com a agravante de ser americana. Que a empresa se tenha tornado «multimilionária» graças ao número crescente de utilizadores, nos Estados Unidos e fora dele, não lhe interessa para nada. O que lhe interessa é o que ele pensa, a doutrina que vem na cartilha, e quando os factos não encaixam no que ele pensa é porque há um problema com os factos. Nada que já não se tenha visto antes, mas continua a surpreender que gente de todos os quadrantes políticos continue a não ver os factos como tal. Sobretudo quando se é jornalista (julgo ser o caso dele), para quem os factos devem ser intocáveis.

30 de abril de 2016

A UBER AGRADECE. Ainda que de forma involuntária, os taxistas fazem os possíveis e os impossíveis para promover a Uber. Porque se a Uber é má para eles (e até ver não há dúvida que é), só pode ser boa para os utilizadores. Se a plataforma opera dentro da legalidade ou infringe as regras, não faço ideia. Por aquilo que se vai sabendo, os tribunais têm dúvidas, as leis existentes não ajudam, os governos hesitam em tomar medidas. Uma coisa, porém, parece certa: a Uber veio para ficar. Quem dantes utilizava os táxis e experimentou a Uber não tem dúvidas em escolher a segunda. Por quase tudo. Pelas viaturas. Pela qualidade do serviço prestado. Porque não tem que aturar os estados de alma dos taxistas, mais a lendária má-criação e as não menos lendárias aldrabices. Aliás, neste aspecto a Uber já mudou alguma coisa. Baixaram drasticamente as queixas sobre os serviços prestados pelos táxis desde que a Uber começou a operar, e há sinais de que o comportamento dos taxistas tem vindo a melhorar. São boas notícias, sobretudo para os taxistas, que a competição com a Uber passa, também, por aqui. A murro e a pontapé, às vezes nas barbas da polícia (sem que esta por vezes faça o que deve), não resolverão coisa nenhuma. Pelo contrário. Perderão as poucas razões que ainda terão.

21 de abril de 2016

QUE DEUS TENHA MISERICÓRDIA DO BRASIL. Trinta e seis dos 65 deputados que integraram a comissão que votou pela abertura do processo de destituição da Presidente Dilma Rousseff, o chamado impeachment, está a contas com a justiça. Há 35 partidos políticos no Brasil, 25 dos quais com representação parlamentar — e mais 20 em processo de formação. Os detentores de cargos políticos mudam de partido como quem muda de camisa. Compram-se, literalmente, votos, quase sempre com dinheiros públicos. O ónus da prova está justamente invertido: os detentores de cargos políticos são desonestos até prova em contrário. Grande parte são suspeitos, ou mesmo acusados, de corrupção. O que têm em comum Michel Temer, que assumirá a Presidência no caso de Dilma ser afastada, Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, e Renan Calheiros, líder do Senado? Todos apoiaram a destituição da Presidente, e todos são acusados, ou suspeitos, de corrupção. Mais de metade dos 513 deputados enfrentam processos judiciais, maioritariamente por crimes de corrupção. No passado domingo, a votação do impeachment na Câmara de Deputados foi o que se viu: uma sucessão de episódios grotescos, que fizeram rir meio mundo e embaraçaram os brasileiros com vergonha na cara. Eis o contexto em que a Presidente enfrenta um processo de destituição — por violação da lei orçamental, que terá, segundo os opositores, servido para mascarar as contas públicas de modo a criar um ambiente favorável à sua reeleição (como sucedeu), e que, provavelmente devido à sua complexidade, nenhum deputado invocou no momento da votação. Como despudoradamente dizia o presidente da Câmara dos Deputados antes de votar a favor do impeachment, «que Deus tenha misericórdia desta nação». Mas parece-me, como agnóstico, que nem a infinita misericórdia de Deus chegará para tirar o Brasil do gigantesco buraco em que se meteu.

8 de abril de 2016

GRANDES COMEÇOS. Li, há coisa de dois anos, O Púcaro Búlgaro, do brasileiro Campos de Carvalho, a que cheguei graças a uma muito elogiosa referência de Cardoso Pires não me lembro em que livro. Descubro agora, na revista Bula, este magnífico começo de A Lua Vem da Ásia, que já tratei de adquirir. Ora leiam:

«Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa — e qual defesa seria mais legítima? — logrei ser absolvido por cinco votos a dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.»

7 de abril de 2016

NO PASA NADA? Ouço, com surpresa, comentadores e jornalistas desvalorizar os «Papéis do Panamá», alegando uns que o assunto não surpreendeu, outros que o caso nem é notícia. Segundo eles, o assunto tem barbas, e o que acaba de ser revelado nada acrescenta ao que já se sabia. Ora, parecem-me visões apressadas. Se é verdade que as operações offshore agora reveladas não surpreendem ninguém, são precisos factos (repito: factos) para que se possa, se for caso disso, agir criminalmente. O que «toda a gente sabe» nunca serviu, até agora, para nada. Mas daqui em diante, com os factos já conhecidos (e os que se anunciam), se não se porá fim à bandalheira (não sou ingénuo a ponto de acreditar nesse cenário), nada ficará como dantes. Quem se meteu em alhadas, sabe agora que é muitíssimo maior o risco de ser descoberto, pelo que opta por escapulir-se para um esquema ainda mais sofisticado (e secreto), por regularizar eventuais irregularidades, ou por rezar aos santinhos para que nada lhe suceda. Resumindo, quem tencionava meter-se em aventuras pensa, agora, mais vezes. É um progresso.

5 de abril de 2016

QUEM TEM MEDO DA BANCA ESPANHOLA? Deus saberá (sou agnóstico) como me esforço para perceber os inúmeros esquemas de sacar dinheiro aos bancos (ao que parece uma actividade muito praticada em Portugal) sem que lhes sejam apresentadas garantias em caso de incumprimento, mas os esquemas são de tal modo intrincados (e tão mal explicados, mesmo pelos melhores jornalistas da área) que a maior parte das vezes só consigo saber que houve aldrabice, mas não exactamente porquê. Mas quando se diz que houve bancos que emprestaram dinheiro para investir em acções tendo as ditas como garantia, qualquer um percebe que se chegou ao puro delírio. (Dizem-me que, em troca de subornos, administradores houve que emprestaram quantias astronómicas sem quaisquer garantias, o que talvez explique, em parte, o problema.) Não acredito no alarmismo do Banco da Escócia, que ainda há pouco aconselhou os depositantes a tirar o dinheiro dos bancos — tão-pouco no Goldman Sachs, que logo veio desvalorizar o conselho. Mas como ignorar os problemas com os bancos que têm surgido um pouco por todo o lado, e que as soluções para os resolver continuem no domínio da astrologia? Fala-se agora, com a venda do Banif ao Santander (mas não só), do «perigo espanhol». Até o Presidente da República manifestou preocupação, não sei se genuína, se circunstancial. Honestamente, o «perigo espanhol» (antes o «perigo espanhol» que o perigo angolano, já agora) não me incomoda. Pelo contrário: sinto que o meu dinheiro estaria mais seguro nas mãos da banca espanhola que às ordens dos trampolineiros e seus cúmplices (leia-se supervisores) que têm administrado a banca nos últimos anos.

1 de abril de 2016

NÃO ME ESTRAGUEM O NEGÓCIO. Morais Sarmento considera que a «reacção portuguesa» à condenação de 17 activistas angolanos foi «desproporcionada». Porque também a China, com quem Portugal mantém importantes negócios, viola os direitos humanos, e os portugueses não se ralam. Sarmento tem interesses em Angola. Como advogado, pelo menos. Convém-lhe, por isso, defender o regime que o acolhe. Mas operando ele na área da justiça, esperar-se-ia uma de duas coisas: que denunciasse a farsa que foi o julgamento dos activistas, ou que estivesse calado. Assim não entendeu o ex-ministro da Presidência. Preferiu passar a mão pelo pêlo ao regime angolano, olhar pela vida dele. Como agora se diz, fica o registo para memória futura.

29 de março de 2016

TEORIAS QUE OS FACTOS DESMENTEM. Sergio Moro, juiz que preside à investigação Lava Jato, pode ter cometido erros, e tudo indica que cometeu. Mas querer torná-lo no vilão da pantomina em exibição, só mesmo por ignorância ou má fé. Acusam-no de ter uma agenda política, de querer «judicializar» a política. Não sei se terá, e se é essa a sua intenção. Sei é que este tipo de acusações já se tornou um clássico — que no final nunca se confirma. Tomáramos nós que os políticos/governantes fossem escrutinados como está, e bem, a ser escrutinado o juiz Moro. Seguramente que viveríamos num mundo em que a generalidade dos políticos/governantes serviriam melhor os que se propõem servir em vez de servirem os fins que todos sabemos.

22 de março de 2016

PARECE QUE ROUBOU POUCO. Numa coisa estão de acordo os defensores da ideia de que está em marcha, no Brasil, um golpe de Estado comandado pelo juiz Sergio Moro contra o actual Governo: Dilma Rousseff não deveria ter convidado Lula da Silva para o Governo numa altura em que o ex-presidente se arriscava a ser detido de um momento para o outro, e Lula da Silva não deveria ter aceitado o convite da Presidente porque, aceitando, pareceu uma fuga à justiça — e em política, como dizia o outro, o que parece é. Mas o episódio não é coisa pouca, como alguns querem fazer crer. «As suspeitas sobre Lula não são propriamente avassaladoras – ocultação de posse de um apartamento que ele diz ter desistido de comprar e de um banal “sítio” de férias – e francamente ridículas, se pensarmos no habitual para a escala brasileira», escreveu Rui Tavares. Vindo de quem vem, o argumento surpreende. Então Lula da Silva, a confirmarem-se as suspeitas que sobre ele recaem, não roubou o bastante para ter a justiça à perna? Bem sei que, de tão habituados à corrupção, os brasileiros só consideram ladrão o político/governante que rouba acima de determinado montante, e há ainda o peculiar argumento do «rouba, mas faz». Mas que seja um português a dizê-lo, ainda por cima um ex-deputado europeu e dirigente de um partido político, é extraordinário.

17 de março de 2016

REPÚBLICA DAS BANANAS. Muito citada por estes dias a célebre frase de Luiz Inácio Lula da Silva, textualmente mais ou menos assim: «Neste país, quando o pobre rouba, vai prá cadeia. Mas se for rico, vira ministro.» É que o ex-presidente Lula da Silva acaba de integrar o Governo de Dilma Rousseff (assumiu um cargo equivalente ao «nosso» primeiro-ministro), precisamente numa altura em que é suspeito de branqueamento de capitais e falsificação de documentos e foi pedida a sua prisão preventiva. Alçado a ministro, só o Supremo Tribunal Federal o poderá incomodar, o que é pouco provável. Como é evidente, a concretizar-se tal cenário (Lula já assumiu o cargo mas há várias acções em tribunal a pedir a nulidade da posse), o «negócio» tem todos os ingredientes para acabar mal. Para Lula, que fará adensar as suspeitas que sobre ele recaem — e, mais tarde ou mais cedo, lhe cairão em cima sob a forma de provas. E para Dilma, que acabará destituída do cargo (o processo de impeachment ganhou hoje um novo fôlego), e o mais que se verá. Enquanto a dupla cozinha a melhor forma de salvar a pele, a justiça, não isenta de críticas, vai fazendo o seu caminho (o juiz que lidera o processo acaba de divulgar escutas telefónicas de Lula com Dilma onde fica claro que a nomeação de Lula para a Casa Civil é uma fuga/obstrução à justiça). Como não bastasse, «a rua», que tem vindo a aumentar nas últimas semanas, ameaça pôr mais lenha na fogueira. Que os nossos «irmãos» me desculpem, mas isto é de mais até para os padrões brasileiros.